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Flor Menina


Enfermaria de um hospital público, Brasil, dia qualquer

 


Momento 1:

                A mulher contava às outras que o filho mais novo sofria de asma. Depois de vê-lo passar por várias crises sem que a medicina desse jeito, ela, enfim, encontrou o remédio que livrara o menino do suplício: um cágado. Sim, isso mesmo, aquele quelônio de água doce que muita gente costuma criar em quintais como um bichinho de estimação.

Ela dizia, cheia de convicção:

                – Pois resolveu, minha ‘fia’. Agora, quando o menino tem crise, quem fica sem ar é o ‘cago’. Vai tudo pra ele. O menino tem só uma tossezinha, mas o ‘cago’ fica por morto!

 

Momento 2:

          Seis camas em um quarto grande, seis homens internados por mazelas diversas, seis mulheres acompanhando seus doentes. A ala é a mais sucateada do hospital. Móveis, paredes, janelas, banheiros – tudo é velho, desgastado e fedorento.

Mas o tititi animado não tem fim. Uma das mulheres, sentada em cadeira forrada com um desbotado lençol do hospital, mastiga os últimos pedaços da bolacha distribuída no lanchinho da noite e, numa alegria genuína, dispara:

       – ‘Num’ fosse os parente [sic]  que ‘tão’ internado, isso aqui era bom demais! Eu sinto é falta quando troco com minha menina e ela vem ficar de acompanhante. É tão legal, rapaz! Uma amizade! Muito gostoso...

 

Momento 3:

                A mulher, sofrida e cheia de lamentações, implicava com o marido por tudo. O marido, pra piorar a situação, era só ironia.

                Ela dizia:

                – Ô Fulano, você devia era rezar, viu? Pedir clemência a Deus, em vez de ficar falando besteira...

                E ele:

                – Oxe, eu converso direto com Jesus, ele é meu colega!

                Ela não baixava a crista:

                – A pessoa tem que ter Deus no coração, Fulano! Se não, meu ‘fí’, a pessoa ‘pardece’...

 

Momento 4:

                A mulherada não fechava o bico. Quando começava a falar de comida, então, era um reboliço. Cada uma que se exaltasse mais pra falar de seus pratos preferidos (o isolamento forçado no hospital, por dias a fio, as deixava ainda mais saudosas de suas coisas).

                Uma delas, sem pestanejar – e falando mais alto que as outras –, alardeou:

                – Eu ‘tô’ em tempo de morrer aqui, sem cuscuz! Pense que é a comida melhor do mundo! ‘Num’ vivo sem cuscuz! Pode fazer dois, que eu como ‘tudim’!



Escrito por Sheila às 22h26
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