Trilha sonora
Meu pai tinha uma coleção de LPs de música orquestrada que eu amava. As capas brancas com títulos em elegantes letras douradas escondiam tesouros que me deslumbravam a cada passeio da agulha pelo vinil. As músicas surtiam em mim o efeito de um mergulho profundo em recantos da minha alma que somente aqueles acordes podiam atingir. Cada disco era dedicado a um estilo, e os dois que eu mais ouvia eram o dos temas de cinema e o das valsas.
O tema de O poderoso chefão, por exemplo. Eu nunca havia assistido ao filme - muito menos lido o livro -, mas podia sentir toda a tragicidade e força daquela história, bastava fechar os olhos. Sentia o coração apertado porque sabia que algo havia se perdido para sempre, como um retrato jogado na fogueira, o único retrato de alguém que se amou muito. Eu suspirava e quase podia tocar aquela dor, que sequer me pertencia. Era ainda uma menina, mas inconscientemente sabia que o compositor daquela música tinha feito um bom trabalho.
Além desse famoso tema, me emocionava também com outro, o de Lara, do filme Dr. Jivago. Às vezes, chegava mesmo a chorar... Mas a agulha passava para a faixa seguinte e o sentimento também mudava. Como a melancolia de final de tarde que me tomava quando ouvia "Midnight Cowboy Theme"ou a alegria saltitante de "Raindrops can falling on my head". Com "Moon River", me vinham ao mesmo tempo excitação e tristeza. E assim seguia, faixa por faixa, cada uma com a sua caixinha de emoções para ser aberta à primeira nota.
Já com o LP das valsas a postura era diferente. Essas músicas, ao contrário das do disco de cinema, eu não ouvia com headphones e olhos fechados. Pelo contrário: eu bailava e bailava pelo meio da casa, como se estivesse num palco! Fazia piruetas, dava saltos, levantava a perna - era a própria bailarina! Eu me esmerava, pois meu príncipe encantado me espreitava por trás das árvores do bosque. "Danúbio Azul", a "Valsa do Imperador", "Contos dos bosques de Viena"... Eu bailava uma, duas, três vezes. No final, meu príncipe saía do esconderijo e se declarava perdidamente apaixonado por mim. Era o êxtase!
Com o advento do CD e a impossibilidade de consertar a velha radiola, meu pai colocou seus discos de vinil em caixas de papelão e levou tudo para o quartinho de tralha. Anos depois, por falta de uso, alguns mofaram e outros tiveram as capas comidas por traças. Talvez aqueles discos brancos com elegantes letras douradas ainda estejam por lá. Qualquer dia eu dou uma olhada. Foram bons companheiros e merecem um lugar na estante, mesmo que eu não tenha onde tocá-los.
Escrito por Sheila às 18h09
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Carreira literária
Tinha pouco mais de dez anos de idade quando resolvi escrever o meu primeiro livro. Comprei um caderno aramado de 500 folhas e confidenciei à minha avó: "Vou escrever minha biografia, vó". Ela achou graça e me explicou que biografia era coisa pra gente um bocadinho mais velha, que eu deveria pensar em outro gênero, mais infantil, e deixasse pra contar a história da minha vida para quando ela já tivesse sido bem vivida. Aí pensei, pensei, pensei... E decidi escrever um romance! (É, eu sei, era uma pirralha metida)
Dessa vez a minha avó não riu - apesar de a situação implorar por isso - nem tentou me persuadir a fazer outra coisa. Tenho pra mim que ela não levou a idéia muito a sério, achou que eu esqueceria tudo rapidinho. Mesmo assim, sempre me perguntava: "Como vai o livro?". Eu respondia: "Tô escrevendo, vó. Tô escrevendo". Ela, curiosa: "Me deixe ler o que você já escreveu". Eu, temerosa: "Ãhhhh... Agora não, vó. Quando eu terminar, tá certo?".
E assim foi, nem sei por quanto tempo. Escrito a lápis, o livro não preencheu as 500 páginas do caderno aramado, mas chegou perto do meio. Era dividido em capítulos intitulados e contava a estória de um casal que se amava muito, mas que, por ciúmes e mal-entendidos, acabava brigando e se separando. No final, quando todas as coisas eram esclarecidas, os pombinhos reatavam. Entre lágrimas e sorrisos, a amada contava ao amado que estava grávida. Êxtase e fim!
Radiante, fechei o caderno, respirei fundo e fui até a minha avó: "Terminei, vó". Ela se animou: "Vou ler já, já!". Deixei o caderno na cesta de crochê dela e fui pro colégio. Quando voltei, corri para saber o veredicto: "Leu?". Minha avó: "Li. Muito bem, muito bem... Mas...". Eu, suando frio: "O que, vó? O quê?". Ela: "Esse negócio de gravidez não é assunto apropriado para uma menina. Não é pra sua idade, minha filha. Melhor você modificar". Mesmo sem entender muito bem o argumento, apaguei tudo e escrevi um novo final. Ela gostou, mas eu achei sem graça. Deixei o caderno aramado pra lá.
Passou-se o tempo.
De quando em quando, me metia a escrever poesias. Eram também temas adultos, carregados de dores de amores, desejos (in)contidos, solidão. Aqueles que liam tais obras se espantavam: "Mas você é tão mocinha!...". Eu achava um baita elogio, claro. Adolescente adora pensar que já é adulto.
Aí um dia escrevi uma peça para o teatrinho do colégio. Chamava-se As irmãs casadoiras e era uma comédia rasgada (é óbvio que do meu lápis não surgiria uma fábula ou um conto de fadas). A professora de português encucou com o casadoiras, mas eu finquei pé; queria daquele jeito, com cara de antigamente. Deu certo. A história de três irmãs solteironas em busca de marido fez a escola inteira rir - eu também atuei, fui uma das coroas - e me deixou animada para escrever outras peças.
E escrevi. Desta vez, sem risos. A coisa agora ia descambar para o drama. Tema: historinha sobre embate de gerações, conflitos adolescentes e gravidez indesejada. A turma achou super bacana, era o que a gente via e vivia. Mas não foi adiante, né? A madre superiora achou pesadíssimo. A matemática dela era simples: gravidez indesejada = sexo sem casamento. Que pecado! Não, não, nem pensar. Por que eu não escrevia coisas no estilo felizes-para-sempre? Ou algum tema bíblico, que seria mais bonito ainda?
Hum. Passou a vontade. Eu queria escrever sobre o que a gente sentia, as dúvidas que tinha, os desejos e sonhos, os medos e frustrações. Se não podia ser assim, não seria de outro jeito. Voltei aos poemas. Depois, deixei os poemas por um tempo e me dediquei somente ao diário. Aí fui brincar de ser jornalista. Entre uma matéria sobre buracos na rua e outra sobre a queda dos juros, voltei uma vez mais aos poemas.
Hoje, nem diário, nem poemas, nem matérias. Tampouco peças ou livros. O pior é que a censora, desta vez, sou eu mesma.
Escrito por Sheila às 20h36
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