Pois é

Aí resolvemos passar Ano Novo na praia, um montão de gente alojado na casa de uma tia. Limpa aqui, cozinha ali, lava prato acolá... Aquela coisa de festa com a família toda reunida: a homarada no bem bom e a mulherada se esfalfando pra deixar tudo nos trinques.
Depois das doze badaladas, resolvemos passear um pouco pela orla. A idéia era encher os pulmões de ar marítimo - principalmente nós, mulheres, tão cansadas da lida - e dar as boas vindas ao ano que chegava. Mas tinha uma festa correndo solta por lá, seria difícil curtir o momento da maneira zen que a gente desejava. O estampido de fogos de artifício, o som de vozes e risadas, o vai-e-vem de gente na rua... Tudo a gente via e ouvia do terraço da casa. Mesmo assim, decidimos arriscar.
Que tolinhas!
Em cada uma das tendas montadas ao largo da avenida, alugadas por grupos de pessoas, rolava uma música diferente. Como se fosse pouco, malas de carros com pesados equipamentos de som estrondavam refrões que iam de "chupa que é de uva" a "pegue na minha e balance". Ao lado, um bando de rapazolas exibia músculos e levantava copos, enquanto balançava o esqueleto como se estivesse em um curso de dança sincronizada - todos exatamente iguais! As moçotas não ficavam atrás. Também em grupinhos, também bebendo, também dançando músicas inimagináveis.
Dez minutos depois, desisti. Aliás, caí em mim. Voltei correndo pra casa, credo! Se continuasse assistindo àquele espetáculo deprimente, aí sim, estaria desistindo. Desistindo da minha sanidade mental. A praia que esperasse a luz do dia e a limpeza dos garis, porque naquela noite a visita foi aniquilada pela maneira sem graça como as pessoas se divertem hoje em dia.
Moral da história: as pessoas estão cada vez mais, e inexoravelmente, idiotas. E que espoquem os foguetões!
Escrito por Sheila às 23h51
[]
[envie esta mensagem]
[link]

Já era...
Ultimamente, tenho sentido uma saudade que nem te falo. Saudade de um monte de coisa, até do que nunca vivi. Hoje, tem uma que está me incomodando um bocado. A saudade da espera.
Havia um tempo, recentíssimo, por sinal, em que a gente saboreava o prazer da espera. Esperavam-se, por exemplo, as quatro festas do ano. Em cidades pequenas como a minha a gente contava os dias pra chegada de uma determinada festa - que nem era antecipada nem era prolongada, acontecia no momento e no período que tinha de acontecer.
Citemos o Carnaval. Nessa farra momesca, depois de uma coisa chamada Grito de Carnaval, a turma bolava as fantasias, aprendia as marchinhas e frevos da hora, comprava confetes e serpentinas e se preparava pra viver intensamente aqueles quatro dias que eram apenas quatro. Depois, guardava tudo, se extasiava com as lembranças daqueles doces e loucos dias e pensava em como seria o próximo reinado de Momo - coisa que acontecia somente no próximo ano, pois não havia esse negócio de mica-isso-mica-aquilo.
Outra festa esperada era o São João. Os cantores e grupos de forró lançavam suas músicas depois da Semana Santa e todo mundo já começava a fazer um top list das mais bonitas, tentando adivinhar qual delas teria a cara daquele ano. Era o mês de junho entrando e as quadrilhas se espalhando pelas ruas das cidades. Tudo bem que hoje ainda há quadrilhas, fogueiras, bandeirinhas... Mas quase não tem mais forró. O que se ouve e se dança por aí pode ser chamado de qualquer coisa, menos de forró. Mau-gosto, vulgaridade, bizarrice, apelação - tudo junto e mais um pouco. Pra piorar, a galera curte isso de janeiro a janeiro. Valha-me.
Concluindo: hoje, ninguém mais espera uma festa com ansiedade. Há festa praticamente todo dia, nem necessita motivo! E são todas iguais. Com as mesmas "músicas", a mesma bebedeira, o mesmo histórico de acidentes ou brigas. E são uma bagunça, sabe? Uma mundiça, como a gente diz por aqui. Dá vontade de ir num canto desses? Não mesmo.
Daí a minha saudade.
E não falo somente da saudade de esperar por coisas grandes. Falo de coisicas cotidianas, também. Como esperar pela fruta no tempo. Ou pela dor do parto. Esperar pela adolescência, esperar pela juventude, esperar pela idade adulta. Esperar pelo amor e pelo sexo.
Saber esperar.
Sei lá, acho que as coisas têm mais sabor quando são mais raras. Ou, pelo menos, um pouco mais difíceis. Quando esperamos por elas, sonhamos com elas, nos lembramos delas... Ficam mais marcantes e deixam na alma aquele inigualável gostinho de quero mais.
Mas quem nessa sociedade fast food tem paciência pra esperar seja lá o que for? Todo mundo quer tudo e quer agora. E daí o prazer da espera se esvaiu. Tudo tem de ser vivido até a última gota, e uma coisa emendada na outra, que é pra o tédio não enlaçar ninguém. É um troço nervoso, um pavor de ficar sozinho por alguns instantes, de ouvir o silêncio, de pensar em outras coisas. Tem que viver ligado.
Povo doido...
Escrito por Sheila às 17h59
[]
[envie esta mensagem]
[link]

|