Aniversário Exatamente uma semana atrás, completei mais um ciclo de 365 dias girando ao redor do sol. Foi o meu Ano Novo. Entre os tantas felicitações, cada uma mais carinhosa e querida que a outra, uma amiga jornalista e muito sabida me enviou um poeminha que achei super lindo. Não é de sua autoria, mas, segundo me confessou, o poema disse tudo o que ela queria me dizer. Colo aqui e divido com vocês, pois amei! 
Escrito por Sheila às 11h24
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De presente: Um belíssimo soneto de Santa Teresa de Ávila, livremente traduzido por mim. Não me move, Senhor, para querer-Te O céu que me tens prometido Nem me move o inferno tão temido Para deixar por isso de ofender-Te. Tu me moves, Senhor, Move-me ver-te Pregado em uma cruz e escarnecido Move-me ver Teu corpo tão ferido, Movem-me Tuas afrontas e Tua morte. Move-me enfim Teu amor, E de tal maneira, Que não houvesse céu eu te amaria, E não houvesse inferno te temeria. Nada tens que me dar para que Te queira, Pois ainda o que espero não esperasse, O mesmo que Te quero Te quereria. Sou fã dessa santa mística e doutora da Igreja...
Escrito por Sheila às 08h25
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Histórias que não ninam - Parte II A menina tinha algumas manias que ninguém entendia. Uma delas era visitar o cemitério para ver, nos mais antigos túmulos, as fotos, o nome e a data de falecimento de gente há muito esquecida. Uma mania que fazia sua mãe proibi-la de ir a tal endereço sem a companhia de alguém, pois nunca se sabia o que podia acontecer... Um dia, ela desobedeceu e foi. O cemitério estava logo ali, ninguém veria, sua mãe não saberia nada. E entrou. Olhou, especulou e perambulou o quanto pôde. Num dado momento, apareceu alguém. Um “conhecido”. Puxou conversa, sorriu... A menina meio desconfiada... Depois perguntou se ela queria ver uma fotografia no túmulo à frente, o mais alto da necrópole. A menina respondeu que não, era ainda pequena para conseguir enxergá-la. Ele disse: “Eu subo você”. Ela não respondeu nem sim nem não, teve medo. Antes que abrisse a boca, já estava nos ombros dele. E começou a sentir sua mão de lixa subindo-lhe pelas pernas, suas voz rouca dizendo-lhe coisas, a mão agora na coxa, a respiração mais afoita, a mão agora lhe abaixando a calcinha... E a menina se bateu no ombro do “conhecido”, assustada. Chutou, açoitou com as mãos, até que ele a soltou. Quando pisou no chão, correu feito faísca. Não disse nada à mãe, temia levar um castigo.
Escrito por Sheila às 16h35
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São assim... Eles falam alto e movimentam braços e mãos com gestos que parecem seguir uma tradição, porque são os mesmos em todas as classes sociais e faixas etárias – e, mais interessante, parecem estar intrinsecamente ligados à fala: quando se aprende a língua, os gestos vêm a tiracolo. É praticamente impossível que a melodia das palavras não leve o falante a entrar naquela coreografia centenária. Eles comem bem e bebem muito vinho, mas não é algo que se restringe a encher a pança e picar a mula. Aliás, quando se reúnem para um almoço ou jantar, a diversão começa na preparação dos pratos – todo mundo junto e conversando – e se prolonga até bem depois da sobremesa. Eles gostam de comer, de falar de comida, de aprender pratos novos, de conhecer bons vinhos, de assistir a programas televisivos de culinária (há um montão na tevê). Eles são efusivos e falam palavrões sem o menor constrangimento, o que é divertido e, às vezes, chocante para quem não está acostumado. As explosões de palavras, gestos e palavrões faz a gente pensar que a criatura está tomada de raiva e que não nos olhará na cara por uns três dias. No entanto, dois minutos depois, não parece ter havido a menor alteração. Tudo calmo e tranqüilo como uma canção de ninar. E a gente fica meio assim: “hã?”... Eles são vaidosos, principalmente os homens. Como se não bastasse o jeito estiloso de se vestir, os relógios de marca e o cabelo cuidadosamente assanhado, muitos deles raspam o peito (argh!), pintam as unhas com base neutra (argh!!) e fazem as sobrancelhas (argh!!!). Cá pra nós, a maioria se parece com um travesti vestido de homem... Eles se exaltam quando falam de política, mandam todos os políticos para o olho que não vê o sol, mas não fazem nadica de nada para mudar a situação. Digo que gostam mais da polêmica do que ver as coisas organizadas... E eles me olham como se eu fosse doida. Ah, esses italianos... :-)
Escrito por Sheila às 11h08
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Coisas simples que amo

Saio para passear com Beto e o seu velho cachorro, depois do jantar. O caminho é sempre o mesmo, uma rua por onde, àquela hora, transitam poucos carros e pessoas, com alguns canteiros floridos e calçadas estreitas. No meio desse caminho, atravessamos uma pequena ponte. Lá embaixo, em meio ao breu da vegetação ribeirinha, um espetáculo de encanto e luz: centenas de vagalumes piscam as bundinhas luminosas e fazem festa no riacho que desce de montanha longínqua. Que visão mágica! Que mergulho no passado! Aquelas pequenas fadinhas voando e luzindo me trazem a infância e seus doces sonhos de volta, ainda que por alguns breves instantes... As brincadeiras com os amigos da rua, em terreno baldio cheio de arbustos... A correria pra pegar os bichinhos luminosos…O cheiro da terra molhada... Os risos… A lua cheia… O badalo do sino da matriz… Não há como não ser nostálgico diante de um enxame de vagalumes. Só quem não teve contato com a natureza durante a meninice...
Escrito por Sheila às 12h42
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Histórias que não ninam - Parte I A menina toda a tarde esperava para dar uma volta na roda-gigante. A família não a deixaria ir sozinha. Era pequena, não tinha irmãos mais velhos ou amiguinhos naquela cidade que apenas visitava. E então apareceu o “conhecido”. Perguntou se a menina queria dar uma volta no brinquedo e, como todos confiavam nele, ela foi. Mas alguma coisa aconteceu. Ela não se lembra, mas sabe que alguma coisa aconteceu. Sempre que recorda aquele dia, uma sensação esquisita lhe toma o peito. O “conhecido” era famoso pelas conquistas amorosas, mas quem imaginaria que sua gana baixaria a tal torpeza? Além de tudo, ele era “conhecido”! Mas alguma coisa aconteceu naquela cadeira de roda-gigante, onde estavam só ela e ele. E nunca mais a menina, mesmo depois de mulher feita, confiou no “conhecido”. Com ele, jamais ficou sozinha outra vez.
Escrito por Sheila às 19h21
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Once upon a time… 
There is a place for where nobody goes, only I. It is a lovely place, where a river of crystal waters runs beyond a verdant valley, full of flowers... There’s a delighted wood, where adorable creatures live and where I walk and find myself. There are mountains with snowed peaks and there is a blue sky, where the birds, each one of a prettier and brilliant color, do pirouettes and fly around the rainbow. I dance and sing, I am free and happy...
Escrito por Sheila às 10h22
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Que cansaço... Falando sério? Eu não gosto de sexo. Não mesmo. Você acha isso espantoso? Que nada. Espantoso é o endeusamento que se faz desse ato. É o centro de tudo, está em tudo: na música, no cinema, nas roupas, na conversa com amigos – e até nem tão amigos –, na internet, na televisão, nas reportagens da mídia impressa, na propaganda... Espantosa, muitíssimo mais espantosa, é a permissividade que vem de toda essa banalização. Por isso, repito: eu não gosto de sexo. Não gosto, principalmente, da imposição velada e sufocante que vem de sua onipresença. E dizem que isso é saudável. Faz bem à pele, ao cabelo, à autoestima. Ora, me poupem. Saudável, para mim, é o amor. O carinho. O afeto. O companheirismo. O respeito. E, no meio disso tudo, o desejo. Mas sem a obrigação de ter orgasmos múltiplos, encontrar o tal ponto G ou realizar fantasias tresloucadas. Sem obrigação nem mesmo de haver sexo, até porque tem (muitos) dias em que a coisa não rola mesmo, e ponto. E nada de se sentir inferior por não se adequar a toda essa bobajada que nos empurram goela abaixo, a cada santo dia. Falando sério, mesmo. Eu não gosto de sexo. Eu gosto de amor. Melhor: eu não gosto de fazer sexo, mas de fazer amor. Isso tem algum sentido neste mundo estúpido em que vivemos? Com certeza, não. Mas faz sentido pra mim, e isso já é uma vitória e tanto.
Escrito por Sheila às 20h06
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Sobre vovós e senso de ridículo
Reivindico o meu direito a ser uma vovó que faz crochê, usa xale e se balança numa cadeira de balanço enquanto assiste à novela. Saudável, sim. Bem cuidada. Que passeia, encontra amigos, viaja, se veste bem... Mas que não deixa de fazer coisas que durante anos todas as vovós fizeram. De onde tiraram a idéia de que é feio, para uma vovó, tricotar ou acompanhar enredos televisivos? Que isso é ultrapassado, e até absurdo, nos tempos atuais? Quem disse que temos de nos embonecar na proporção em que envelhecemos, como se fosse vergonhoso admitir que o tempo passou? Conheço algumas vovós ditas modernas que sequer admitem ser chamadas de vovó. Vivem nas academias de ginástica, fazem todas as plásticas e preenchimentos possíveis, praticam esporte de aventura, namoram caras (muito) mais moços e são pra lá de descoladas. E quando ouvem falar que alguma amiga está tricotando os sapatinhos do neto, é certo terem uma crise de urticária! “Que antiquada”, dizem, empinando o nariz recém-operado e dando de ombros, como se tivessem ouvido uma blasfêmia. Sinceramente, não vejo o que faz as pessoas entrarem nessa paranóia. Se alguma dessas avós modernosas lesse o que escrevi aqui, pode até ser que argumentasse: "Ah, você diz isso porque ainda é jovem!". Mas não é só uma questão de idade. É de senso de ridículo, mesmo. E também aceitação, sabe? O tempo passa, e ponto final. Quem não quiser ficar velho, que morra jovem! Eu, hein?
Escrito por Sheila às 18h40
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Salamanca uma vez mais 
Cá estou eu de novo, na cidade universitária mais famosa da Espanha. Será por algumas poucas semanas, só até chegar o verão. Aí vou para a Itália, fico lá de dois a três meses e, quando voltar à terra dos touradas, me fixo em Madrid. Quer dizer, fixar, fixar não é bem a palavra. Digamos que eu permaneço ali por mais tempo que em Salamanca ou na Itália. Pelo menos essa é a ideia. E depois... Aí só mesmo Deus sabe. Mas é bom rever Salamanca. Há coisas daqui que me encantam. A Plaza Mayor, por exemplo, é linda de viver. Dizem que é a mais bonita das cidades espanholas, e eu não duvido. Ontem fui lá, estava um ruge-ruge de gente que só vendo. Tomei sorvete de iogurte e mel e depois passeei pelos principais pontos do centro antigo. É engraçado estar aqui de novo, depois de cinco meses mergulhada no calor e na umidade do meu doce Nordeste brasileiro. Já sinto uma saudade que nem te conto. Bom, é isso. Espero que agora me sobre um tempinho e eu possa vir aqui mais vezes. História não falta...
Escrito por Sheila às 14h42
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Agora diga que não é bonito! “Uma tarde de inverno no sertão É um belo espetáculo para quem passa Serra envolta nos tufos de fumaça Água forte rolando pelo chão O estrondo da máquina do trovão Entre as nuvens do céu arroxeado O raio caindo assombra o gado Atolado por entre as lamas pretas Rosna o vento fazendo piruetas Nas espigas de milho do roçado” Ivanildo Vila Nova
Escrito por Sheila às 00h42
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Trilha sonora
Meu pai tinha uma coleção de LPs de música orquestrada que eu amava. As capas brancas com títulos em elegantes letras douradas escondiam tesouros que me deslumbravam a cada passeio da agulha pelo vinil. As músicas surtiam em mim o efeito de um mergulho profundo em recantos da minha alma que somente aqueles acordes podiam atingir. Cada disco era dedicado a um estilo, e os dois que eu mais ouvia eram o dos temas de cinema e o das valsas.
O tema de O poderoso chefão, por exemplo. Eu nunca havia assistido ao filme - muito menos lido o livro -, mas podia sentir toda a tragicidade e força daquela história, bastava fechar os olhos. Sentia o coração apertado porque sabia que algo havia se perdido para sempre, como um retrato jogado na fogueira, o único retrato de alguém que se amou muito. Eu suspirava e quase podia tocar aquela dor, que sequer me pertencia. Era ainda uma menina, mas inconscientemente sabia que o compositor daquela música tinha feito um bom trabalho.
Além desse famoso tema, me emocionava também com outro, o de Lara, do filme Dr. Jivago. Às vezes, chegava mesmo a chorar... Mas a agulha passava para a faixa seguinte e o sentimento também mudava. Como a melancolia de final de tarde que me tomava quando ouvia "Midnight Cowboy Theme"ou a alegria saltitante de "Raindrops can falling on my head". Com "Moon River", me vinham ao mesmo tempo excitação e tristeza. E assim seguia, faixa por faixa, cada uma com a sua caixinha de emoções para ser aberta à primeira nota.
Já com o LP das valsas a postura era diferente. Essas músicas, ao contrário das do disco de cinema, eu não ouvia com headphones e olhos fechados. Pelo contrário: eu bailava e bailava pelo meio da casa, como se estivesse num palco! Fazia piruetas, dava saltos, levantava a perna - era a própria bailarina! Eu me esmerava, pois meu príncipe encantado me espreitava por trás das árvores do bosque. "Danúbio Azul", a "Valsa do Imperador", "Contos dos bosques de Viena"... Eu bailava uma, duas, três vezes. No final, meu príncipe saía do esconderijo e se declarava perdidamente apaixonado por mim. Era o êxtase!
Com o advento do CD e a impossibilidade de consertar a velha radiola, meu pai colocou seus discos de vinil em caixas de papelão e levou tudo para o quartinho de tralha. Anos depois, por falta de uso, alguns mofaram e outros tiveram as capas comidas por traças. Talvez aqueles discos brancos com elegantes letras douradas ainda estejam por lá. Qualquer dia eu dou uma olhada. Foram bons companheiros e merecem um lugar na estante, mesmo que eu não tenha onde tocá-los.
Escrito por Sheila às 18h09
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Carreira literária
Tinha pouco mais de dez anos de idade quando resolvi escrever o meu primeiro livro. Comprei um caderno aramado de 500 folhas e confidenciei à minha avó: "Vou escrever minha biografia, vó". Ela achou graça e me explicou que biografia era coisa pra gente um bocadinho mais velha, que eu deveria pensar em outro gênero, mais infantil, e deixasse pra contar a história da minha vida para quando ela já tivesse sido bem vivida. Aí pensei, pensei, pensei... E decidi escrever um romance! (É, eu sei, era uma pirralha metida)
Dessa vez a minha avó não riu - apesar de a situação implorar por isso - nem tentou me persuadir a fazer outra coisa. Tenho pra mim que ela não levou a idéia muito a sério, achou que eu esqueceria tudo rapidinho. Mesmo assim, sempre me perguntava: "Como vai o livro?". Eu respondia: "Tô escrevendo, vó. Tô escrevendo". Ela, curiosa: "Me deixe ler o que você já escreveu". Eu, temerosa: "Ãhhhh... Agora não, vó. Quando eu terminar, tá certo?".
E assim foi, nem sei por quanto tempo. Escrito a lápis, o livro não preencheu as 500 páginas do caderno aramado, mas chegou perto do meio. Era dividido em capítulos intitulados e contava a estória de um casal que se amava muito, mas que, por ciúmes e mal-entendidos, acabava brigando e se separando. No final, quando todas as coisas eram esclarecidas, os pombinhos reatavam. Entre lágrimas e sorrisos, a amada contava ao amado que estava grávida. Êxtase e fim!
Radiante, fechei o caderno, respirei fundo e fui até a minha avó: "Terminei, vó". Ela se animou: "Vou ler já, já!". Deixei o caderno na cesta de crochê dela e fui pro colégio. Quando voltei, corri para saber o veredicto: "Leu?". Minha avó: "Li. Muito bem, muito bem... Mas...". Eu, suando frio: "O que, vó? O quê?". Ela: "Esse negócio de gravidez não é assunto apropriado para uma menina. Não é pra sua idade, minha filha. Melhor você modificar". Mesmo sem entender muito bem o argumento, apaguei tudo e escrevi um novo final. Ela gostou, mas eu achei sem graça. Deixei o caderno aramado pra lá.
Passou-se o tempo.
De quando em quando, me metia a escrever poesias. Eram também temas adultos, carregados de dores de amores, desejos (in)contidos, solidão. Aqueles que liam tais obras se espantavam: "Mas você é tão mocinha!...". Eu achava um baita elogio, claro. Adolescente adora pensar que já é adulto.
Aí um dia escrevi uma peça para o teatrinho do colégio. Chamava-se As irmãs casadoiras e era uma comédia rasgada (é óbvio que do meu lápis não surgiria uma fábula ou um conto de fadas). A professora de português encucou com o casadoiras, mas eu finquei pé; queria daquele jeito, com cara de antigamente. Deu certo. A história de três irmãs solteironas em busca de marido fez a escola inteira rir - eu também atuei, fui uma das coroas - e me deixou animada para escrever outras peças.
E escrevi. Desta vez, sem risos. A coisa agora ia descambar para o drama. Tema: historinha sobre embate de gerações, conflitos adolescentes e gravidez indesejada. A turma achou super bacana, era o que a gente via e vivia. Mas não foi adiante, né? A madre superiora achou pesadíssimo. A matemática dela era simples: gravidez indesejada = sexo sem casamento. Que pecado! Não, não, nem pensar. Por que eu não escrevia coisas no estilo felizes-para-sempre? Ou algum tema bíblico, que seria mais bonito ainda?
Hum. Passou a vontade. Eu queria escrever sobre o que a gente sentia, as dúvidas que tinha, os desejos e sonhos, os medos e frustrações. Se não podia ser assim, não seria de outro jeito. Voltei aos poemas. Depois, deixei os poemas por um tempo e me dediquei somente ao diário. Aí fui brincar de ser jornalista. Entre uma matéria sobre buracos na rua e outra sobre a queda dos juros, voltei uma vez mais aos poemas.
Hoje, nem diário, nem poemas, nem matérias. Tampouco peças ou livros. O pior é que a censora, desta vez, sou eu mesma.
Escrito por Sheila às 20h36
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Pois é

Aí resolvemos passar Ano Novo na praia, um montão de gente alojado na casa de uma tia. Limpa aqui, cozinha ali, lava prato acolá... Aquela coisa de festa com a família toda reunida: a homarada no bem bom e a mulherada se esfalfando pra deixar tudo nos trinques.
Depois das doze badaladas, resolvemos passear um pouco pela orla. A idéia era encher os pulmões de ar marítimo - principalmente nós, mulheres, tão cansadas da lida - e dar as boas vindas ao ano que chegava. Mas tinha uma festa correndo solta por lá, seria difícil curtir o momento da maneira zen que a gente desejava. O estampido de fogos de artifício, o som de vozes e risadas, o vai-e-vem de gente na rua... Tudo a gente via e ouvia do terraço da casa. Mesmo assim, decidimos arriscar.
Que tolinhas!
Em cada uma das tendas montadas ao largo da avenida, alugadas por grupos de pessoas, rolava uma música diferente. Como se fosse pouco, malas de carros com pesados equipamentos de som estrondavam refrões que iam de "chupa que é de uva" a "pegue na minha e balance". Ao lado, um bando de rapazolas exibia músculos e levantava copos, enquanto balançava o esqueleto como se estivesse em um curso de dança sincronizada - todos exatamente iguais! As moçotas não ficavam atrás. Também em grupinhos, também bebendo, também dançando músicas inimagináveis.
Dez minutos depois, desisti. Aliás, caí em mim. Voltei correndo pra casa, credo! Se continuasse assistindo àquele espetáculo deprimente, aí sim, estaria desistindo. Desistindo da minha sanidade mental. A praia que esperasse a luz do dia e a limpeza dos garis, porque naquela noite a visita foi aniquilada pela maneira sem graça como as pessoas se divertem hoje em dia.
Moral da história: as pessoas estão cada vez mais, e inexoravelmente, idiotas. E que espoquem os foguetões!
Escrito por Sheila às 23h51
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Já era...
Ultimamente, tenho sentido uma saudade que nem te falo. Saudade de um monte de coisa, até do que nunca vivi. Hoje, tem uma que está me incomodando um bocado. A saudade da espera.
Havia um tempo, recentíssimo, por sinal, em que a gente saboreava o prazer da espera. Esperavam-se, por exemplo, as quatro festas do ano. Em cidades pequenas como a minha a gente contava os dias pra chegada de uma determinada festa - que nem era antecipada nem era prolongada, acontecia no momento e no período que tinha de acontecer.
Citemos o Carnaval. Nessa farra momesca, depois de uma coisa chamada Grito de Carnaval, a turma bolava as fantasias, aprendia as marchinhas e frevos da hora, comprava confetes e serpentinas e se preparava pra viver intensamente aqueles quatro dias que eram apenas quatro. Depois, guardava tudo, se extasiava com as lembranças daqueles doces e loucos dias e pensava em como seria o próximo reinado de Momo - coisa que acontecia somente no próximo ano, pois não havia esse negócio de mica-isso-mica-aquilo.
Outra festa esperada era o São João. Os cantores e grupos de forró lançavam suas músicas depois da Semana Santa e todo mundo já começava a fazer um top list das mais bonitas, tentando adivinhar qual delas teria a cara daquele ano. Era o mês de junho entrando e as quadrilhas se espalhando pelas ruas das cidades. Tudo bem que hoje ainda há quadrilhas, fogueiras, bandeirinhas... Mas quase não tem mais forró. O que se ouve e se dança por aí pode ser chamado de qualquer coisa, menos de forró. Mau-gosto, vulgaridade, bizarrice, apelação - tudo junto e mais um pouco. Pra piorar, a galera curte isso de janeiro a janeiro. Valha-me.
Concluindo: hoje, ninguém mais espera uma festa com ansiedade. Há festa praticamente todo dia, nem necessita motivo! E são todas iguais. Com as mesmas "músicas", a mesma bebedeira, o mesmo histórico de acidentes ou brigas. E são uma bagunça, sabe? Uma mundiça, como a gente diz por aqui. Dá vontade de ir num canto desses? Não mesmo.
Daí a minha saudade.
E não falo somente da saudade de esperar por coisas grandes. Falo de coisicas cotidianas, também. Como esperar pela fruta no tempo. Ou pela dor do parto. Esperar pela adolescência, esperar pela juventude, esperar pela idade adulta. Esperar pelo amor e pelo sexo.
Saber esperar.
Sei lá, acho que as coisas têm mais sabor quando são mais raras. Ou, pelo menos, um pouco mais difíceis. Quando esperamos por elas, sonhamos com elas, nos lembramos delas... Ficam mais marcantes e deixam na alma aquele inigualável gostinho de quero mais.
Mas quem nessa sociedade fast food tem paciência pra esperar seja lá o que for? Todo mundo quer tudo e quer agora. E daí o prazer da espera se esvaiu. Tudo tem de ser vivido até a última gota, e uma coisa emendada na outra, que é pra o tédio não enlaçar ninguém. É um troço nervoso, um pavor de ficar sozinho por alguns instantes, de ouvir o silêncio, de pensar em outras coisas. Tem que viver ligado.
Povo doido...
Escrito por Sheila às 17h59
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